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Auxiliar de Administração - 2022


Página 1  •  Total 70 questões
33555Questão 1|Português|fundamental

O jargão

   Nenhuma figura é tão fascinante quanto o Falso Entendido. É o cara que não sabe nada de nada, mas sabe o jargão. E passa por autoridade no assunto. Um refinamento ainda maior da espécie é o tipo que não sabe nem o jargão. Mas inventa.

   – Ó Matias, você entende de mercado de capitais…

   – Nem tanto, nem tanto…

   (Uma das características do Falso Entendido é a falsa modéstia.)

   – Você, no momento, aconselharia que tipo de aplicação?

   – Bom. Depende do yield pretendido, do throwback e do ciclo refratário. Na faixa de papéis top market – ou o que nós chamamos de topi-maque –, o throwback recai sobre o repasse e não sobre o release, entende?

    – Francamente, não.

    Aí o Falso Entendido sorri com tristeza e abre os braços como quem diz “É difícil conversar com leigos…”.

   Uma variação do Falso Entendido é o sujeito que sempre parece saber mais do que ele pode dizer. A conversa é sobre política, os boatos cruzam os ares, mas ele mantém um discreto silêncio. Até que alguém pede a sua opinião e ele pensa muito antes de se decidir a responder:

   – Há muito mais coisa por trás disso do que vocês pensam…

   Ou então, e esta é mortal:

   – Não é tão simples assim…

   Faz-se aquele silêncio que precede as grandes revelações, mas o falso informado não diz nada. Fica subentendido que ele está protegendo as suas fontes em Brasília.

   E há o falso que interpreta. Para ele tudo o que acontece deve ser posto na perspectiva de vastas transformações históricas que só ele está sacando.

   – O avanço do socialismo na Europa ocorre em proporções diretas ao declínio no uso da gordura animal nos países do Mercado Comum. Só não vê quem não quer.

  E se alguém quer mais detalhes sobre a sua insólita teoria ele vê a pergunta como manifestação de uma hostilidade bastante significativa a interpretações não ortodoxas, e passa a interpretar os motivos de quem o questiona, invocando a Igreja medieval, os grandes hereges da história, e vocês sabiam que toda a Reforma se explica a partir da prisão de ventre de Lutero?

   Mas o jargão é uma tentação. Eu, por exemplo, sou fascinado pela linguagem náutica, embora minha experiência no mar se resuma a algumas passagens em transatlânticos onde a única linguagem técnica que você precise saber é “Que horas servem o bufê?”. Nunca pisei num veleiro e se pisasse seria para dar vexame na primeira onda. Eu enjoo em escada rolante. Mas, na minha imaginação, sou um marinheiro de todos os calados. Senhor de ventos e de velas e, principalmente, dos especialíssimos nomes de equipagem.

   Me imagino no leme do meu grande veleiro, dando ordens à tripulação:

   – Recolher a traquineta!

   – Largar a vela bimbão, não podemos perder esse Vizeu.

  O Vizeu é um vento que nasce na costa ocidental da África, faz a volta nas Malvinas e nos ataca a boribordo, cheirando a especiarias, carcaças de baleia e, estranhamente, a uma professora que eu tive no primário.

   – Quebrar o lume da alcatra e baixar a falcatrua!

   – Cuidado com a sanfona de Abelardo!

   A sanfona é um perigoso fenômeno que ocorre na vela parruda em certas condições atmosféricas e que, se não contido a tempo, pode decapitar o piloto. Até hoje não encontraram a cabeça do comodoro Abelardo.

   – Cruzar a spínola! Domar a espátula! Montar a sirigaita! Tudo a macambúzio e dois quartos de trela senão afundamos, e o capitão é o primeiro a pular.

   – Cortar o cabo de Eustáquio!

(Luís Fernando Veríssimo. Publicada em “As Mentiras que os homens contam”.)

Considerando o trecho: “Faz-se aquele silêncio que precede as grandes revelações, mas o falso informado não diz nada.”(13º§), assinale a opção que apresenta a reescrita em que o sentido original e a correção gramatical foram preservados.

  • A

    Haveria um silêncio precedendo às grandes revelações, mas o falso informado não diz nada.

  • B

    Faz aquele silêncio – que precede as grandes revelações, assim o falso informado não diz nada.

  • C

    Aquele silêncio que precede as grandes revelações é feito, todavia o falso informado não diz nada.

  • D

    Fez-se aquele silêncio ao que precede as grandes revelações, contudo o falso informado não diz nada.

33556Questão 2|Português|fundamental

O jargão

   Nenhuma figura é tão fascinante quanto o Falso Entendido. É o cara que não sabe nada de nada, mas sabe o jargão. E passa por autoridade no assunto. Um refinamento ainda maior da espécie é o tipo que não sabe nem o jargão. Mas inventa.

   – Ó Matias, você entende de mercado de capitais…

   – Nem tanto, nem tanto…

   (Uma das características do Falso Entendido é a falsa modéstia.)

   – Você, no momento, aconselharia que tipo de aplicação?

   – Bom. Depende do yield pretendido, do throwback e do ciclo refratário. Na faixa de papéis top market – ou o que nós chamamos de topi-maque –, o throwback recai sobre o repasse e não sobre o release, entende?

    – Francamente, não.

    Aí o Falso Entendido sorri com tristeza e abre os braços como quem diz “É difícil conversar com leigos…”.

   Uma variação do Falso Entendido é o sujeito que sempre parece saber mais do que ele pode dizer. A conversa é sobre política, os boatos cruzam os ares, mas ele mantém um discreto silêncio. Até que alguém pede a sua opinião e ele pensa muito antes de se decidir a responder:

   – Há muito mais coisa por trás disso do que vocês pensam…

   Ou então, e esta é mortal:

   – Não é tão simples assim…

   Faz-se aquele silêncio que precede as grandes revelações, mas o falso informado não diz nada. Fica subentendido que ele está protegendo as suas fontes em Brasília.

   E há o falso que interpreta. Para ele tudo o que acontece deve ser posto na perspectiva de vastas transformações históricas que só ele está sacando.

   – O avanço do socialismo na Europa ocorre em proporções diretas ao declínio no uso da gordura animal nos países do Mercado Comum. Só não vê quem não quer.

  E se alguém quer mais detalhes sobre a sua insólita teoria ele vê a pergunta como manifestação de uma hostilidade bastante significativa a interpretações não ortodoxas, e passa a interpretar os motivos de quem o questiona, invocando a Igreja medieval, os grandes hereges da história, e vocês sabiam que toda a Reforma se explica a partir da prisão de ventre de Lutero?

   Mas o jargão é uma tentação. Eu, por exemplo, sou fascinado pela linguagem náutica, embora minha experiência no mar se resuma a algumas passagens em transatlânticos onde a única linguagem técnica que você precise saber é “Que horas servem o bufê?”. Nunca pisei num veleiro e se pisasse seria para dar vexame na primeira onda. Eu enjoo em escada rolante. Mas, na minha imaginação, sou um marinheiro de todos os calados. Senhor de ventos e de velas e, principalmente, dos especialíssimos nomes de equipagem.

   Me imagino no leme do meu grande veleiro, dando ordens à tripulação:

   – Recolher a traquineta!

   – Largar a vela bimbão, não podemos perder esse Vizeu.

  O Vizeu é um vento que nasce na costa ocidental da África, faz a volta nas Malvinas e nos ataca a boribordo, cheirando a especiarias, carcaças de baleia e, estranhamente, a uma professora que eu tive no primário.

   – Quebrar o lume da alcatra e baixar a falcatrua!

   – Cuidado com a sanfona de Abelardo!

   A sanfona é um perigoso fenômeno que ocorre na vela parruda em certas condições atmosféricas e que, se não contido a tempo, pode decapitar o piloto. Até hoje não encontraram a cabeça do comodoro Abelardo.

   – Cruzar a spínola! Domar a espátula! Montar a sirigaita! Tudo a macambúzio e dois quartos de trela senão afundamos, e o capitão é o primeiro a pular.

   – Cortar o cabo de Eustáquio!

(Luís Fernando Veríssimo. Publicada em “As Mentiras que os homens contam”.)

Considerando-se os conhecimentos acerca das regras de ortografia oficial, pode-se inferir, de acordo com o texto, que o emprego da letra maiúscula para registrar “Falso Entendido” justifica-se, pois:

  • A

    O uso das letras maiúsculas, nesse caso, demonstra a importância do personagem no envolvimento do enredo apresentado.

  • B

    As letras maiúsculas têm como objetivo principal indicar termos de relevância no texto de acordo com o conteúdo apresentado.

  • C

    Expressa a intencionalidade do autor de conferir ao referido personagem uma identificação particular que se aplica a uma classe de pessoas.

  • D

    Embora não se trate de um nome próprio, “Falso Entendido” passa a ser um substantivo por apresentar como determinante um artigo definido.

33557Questão 3|Português|fundamental

O jargão

   Nenhuma figura é tão fascinante quanto o Falso Entendido. É o cara que não sabe nada de nada, mas sabe o jargão. E passa por autoridade no assunto. Um refinamento ainda maior da espécie é o tipo que não sabe nem o jargão. Mas inventa.

   – Ó Matias, você entende de mercado de capitais…

   – Nem tanto, nem tanto…

   (Uma das características do Falso Entendido é a falsa modéstia.)

   – Você, no momento, aconselharia que tipo de aplicação?

   – Bom. Depende do yield pretendido, do throwback e do ciclo refratário. Na faixa de papéis top market – ou o que nós chamamos de topi-maque –, o throwback recai sobre o repasse e não sobre o release, entende?

    – Francamente, não.

    Aí o Falso Entendido sorri com tristeza e abre os braços como quem diz “É difícil conversar com leigos…”.

   Uma variação do Falso Entendido é o sujeito que sempre parece saber mais do que ele pode dizer. A conversa é sobre política, os boatos cruzam os ares, mas ele mantém um discreto silêncio. Até que alguém pede a sua opinião e ele pensa muito antes de se decidir a responder:

   – Há muito mais coisa por trás disso do que vocês pensam…

   Ou então, e esta é mortal:

   – Não é tão simples assim…

   Faz-se aquele silêncio que precede as grandes revelações, mas o falso informado não diz nada. Fica subentendido que ele está protegendo as suas fontes em Brasília.

   E há o falso que interpreta. Para ele tudo o que acontece deve ser posto na perspectiva de vastas transformações históricas que só ele está sacando.

   – O avanço do socialismo na Europa ocorre em proporções diretas ao declínio no uso da gordura animal nos países do Mercado Comum. Só não vê quem não quer.

  E se alguém quer mais detalhes sobre a sua insólita teoria ele vê a pergunta como manifestação de uma hostilidade bastante significativa a interpretações não ortodoxas, e passa a interpretar os motivos de quem o questiona, invocando a Igreja medieval, os grandes hereges da história, e vocês sabiam que toda a Reforma se explica a partir da prisão de ventre de Lutero?

   Mas o jargão é uma tentação. Eu, por exemplo, sou fascinado pela linguagem náutica, embora minha experiência no mar se resuma a algumas passagens em transatlânticos onde a única linguagem técnica que você precise saber é “Que horas servem o bufê?”. Nunca pisei num veleiro e se pisasse seria para dar vexame na primeira onda. Eu enjoo em escada rolante. Mas, na minha imaginação, sou um marinheiro de todos os calados. Senhor de ventos e de velas e, principalmente, dos especialíssimos nomes de equipagem.

   Me imagino no leme do meu grande veleiro, dando ordens à tripulação:

   – Recolher a traquineta!

   – Largar a vela bimbão, não podemos perder esse Vizeu.

  O Vizeu é um vento que nasce na costa ocidental da África, faz a volta nas Malvinas e nos ataca a boribordo, cheirando a especiarias, carcaças de baleia e, estranhamente, a uma professora que eu tive no primário.

   – Quebrar o lume da alcatra e baixar a falcatrua!

   – Cuidado com a sanfona de Abelardo!

   A sanfona é um perigoso fenômeno que ocorre na vela parruda em certas condições atmosféricas e que, se não contido a tempo, pode decapitar o piloto. Até hoje não encontraram a cabeça do comodoro Abelardo.

   – Cruzar a spínola! Domar a espátula! Montar a sirigaita! Tudo a macambúzio e dois quartos de trela senão afundamos, e o capitão é o primeiro a pular.

   – Cortar o cabo de Eustáquio!

(Luís Fernando Veríssimo. Publicada em “As Mentiras que os homens contam”.)

Em “Nenhuma figura é tão fascinante quanto o Falso Entendido. É o cara que não sabe nada de nada, mas sabe o jargão. E passa por autoridade no assunto. Um refinamento ainda maior da espécie é o tipo que não sabe nem o jargão. Mas inventa.”(1º§), pode-se compreender acerca do segmento destacado que:

  • A

    Trata-se de uma caracterização oposta à atribuída ao “Falso Entendido” citado anteriormente.

  • B

    O refinamento referido diz respeito ao indivíduo que não aceita o uso de jargões em sua comunicação.

  • C

    O narrador refere-se a um tipo com um nível mais “aprimorado” de fingimento em relação ao entendimento de determinado assunto.

  • D

    Ainda que não haja conhecimento acerca de determinado assunto, o Falso entendido procura conhecê-lo a ponto de poder expressar-se sobre tal conteúdo.

33558Questão 4|Português|fundamental

O jargão

   Nenhuma figura é tão fascinante quanto o Falso Entendido. É o cara que não sabe nada de nada, mas sabe o jargão. E passa por autoridade no assunto. Um refinamento ainda maior da espécie é o tipo que não sabe nem o jargão. Mas inventa.

   – Ó Matias, você entende de mercado de capitais…

   – Nem tanto, nem tanto…

   (Uma das características do Falso Entendido é a falsa modéstia.)

   – Você, no momento, aconselharia que tipo de aplicação?

   – Bom. Depende do yield pretendido, do throwback e do ciclo refratário. Na faixa de papéis top market – ou o que nós chamamos de topi-maque –, o throwback recai sobre o repasse e não sobre o release, entende?

    – Francamente, não.

    Aí o Falso Entendido sorri com tristeza e abre os braços como quem diz “É difícil conversar com leigos…”.

   Uma variação do Falso Entendido é o sujeito que sempre parece saber mais do que ele pode dizer. A conversa é sobre política, os boatos cruzam os ares, mas ele mantém um discreto silêncio. Até que alguém pede a sua opinião e ele pensa muito antes de se decidir a responder:

   – Há muito mais coisa por trás disso do que vocês pensam…

   Ou então, e esta é mortal:

   – Não é tão simples assim…

   Faz-se aquele silêncio que precede as grandes revelações, mas o falso informado não diz nada. Fica subentendido que ele está protegendo as suas fontes em Brasília.

   E há o falso que interpreta. Para ele tudo o que acontece deve ser posto na perspectiva de vastas transformações históricas que só ele está sacando.

   – O avanço do socialismo na Europa ocorre em proporções diretas ao declínio no uso da gordura animal nos países do Mercado Comum. Só não vê quem não quer.

  E se alguém quer mais detalhes sobre a sua insólita teoria ele vê a pergunta como manifestação de uma hostilidade bastante significativa a interpretações não ortodoxas, e passa a interpretar os motivos de quem o questiona, invocando a Igreja medieval, os grandes hereges da história, e vocês sabiam que toda a Reforma se explica a partir da prisão de ventre de Lutero?

   Mas o jargão é uma tentação. Eu, por exemplo, sou fascinado pela linguagem náutica, embora minha experiência no mar se resuma a algumas passagens em transatlânticos onde a única linguagem técnica que você precise saber é “Que horas servem o bufê?”. Nunca pisei num veleiro e se pisasse seria para dar vexame na primeira onda. Eu enjoo em escada rolante. Mas, na minha imaginação, sou um marinheiro de todos os calados. Senhor de ventos e de velas e, principalmente, dos especialíssimos nomes de equipagem.

   Me imagino no leme do meu grande veleiro, dando ordens à tripulação:

   – Recolher a traquineta!

   – Largar a vela bimbão, não podemos perder esse Vizeu.

  O Vizeu é um vento que nasce na costa ocidental da África, faz a volta nas Malvinas e nos ataca a boribordo, cheirando a especiarias, carcaças de baleia e, estranhamente, a uma professora que eu tive no primário.

   – Quebrar o lume da alcatra e baixar a falcatrua!

   – Cuidado com a sanfona de Abelardo!

   A sanfona é um perigoso fenômeno que ocorre na vela parruda em certas condições atmosféricas e que, se não contido a tempo, pode decapitar o piloto. Até hoje não encontraram a cabeça do comodoro Abelardo.

   – Cruzar a spínola! Domar a espátula! Montar a sirigaita! Tudo a macambúzio e dois quartos de trela senão afundamos, e o capitão é o primeiro a pular.

   – Cortar o cabo de Eustáquio!

(Luís Fernando Veríssimo. Publicada em “As Mentiras que os homens contam”.)

“– Nem tanto, nem tanto… (Uma das características do Falso Entendido é a falsa modéstia.)” O trecho destacado anteriormente apresenta uma expressão entre parênteses que indica:

  • A

    Emprego de ironia na fala do narrador em relação ao Falso Entendido.

  • B

    Argumento textual que confirma a tese defendida pelo autor no desenvolvimento do texto.

  • C

    Demonstração de conhecimento do narrador acerca do assunto tratado por meio de um comentário sobre a fala do personagem.

  • D

    Uma crítica à modéstia demonstrada na fala anterior considerando o grau de conhecimento comprovado do personagem sobre o referido assunto.

33559Questão 5|Português|fundamental

O jargão

   Nenhuma figura é tão fascinante quanto o Falso Entendido. É o cara que não sabe nada de nada, mas sabe o jargão. E passa por autoridade no assunto. Um refinamento ainda maior da espécie é o tipo que não sabe nem o jargão. Mas inventa.

   – Ó Matias, você entende de mercado de capitais…

   – Nem tanto, nem tanto…

   (Uma das características do Falso Entendido é a falsa modéstia.)

   – Você, no momento, aconselharia que tipo de aplicação?

   – Bom. Depende do yield pretendido, do throwback e do ciclo refratário. Na faixa de papéis top market – ou o que nós chamamos de topi-maque –, o throwback recai sobre o repasse e não sobre o release, entende?

    – Francamente, não.

    Aí o Falso Entendido sorri com tristeza e abre os braços como quem diz “É difícil conversar com leigos…”.

   Uma variação do Falso Entendido é o sujeito que sempre parece saber mais do que ele pode dizer. A conversa é sobre política, os boatos cruzam os ares, mas ele mantém um discreto silêncio. Até que alguém pede a sua opinião e ele pensa muito antes de se decidir a responder:

   – Há muito mais coisa por trás disso do que vocês pensam…

   Ou então, e esta é mortal:

   – Não é tão simples assim…

   Faz-se aquele silêncio que precede as grandes revelações, mas o falso informado não diz nada. Fica subentendido que ele está protegendo as suas fontes em Brasília.

   E há o falso que interpreta. Para ele tudo o que acontece deve ser posto na perspectiva de vastas transformações históricas que só ele está sacando.

   – O avanço do socialismo na Europa ocorre em proporções diretas ao declínio no uso da gordura animal nos países do Mercado Comum. Só não vê quem não quer.

  E se alguém quer mais detalhes sobre a sua insólita teoria ele vê a pergunta como manifestação de uma hostilidade bastante significativa a interpretações não ortodoxas, e passa a interpretar os motivos de quem o questiona, invocando a Igreja medieval, os grandes hereges da história, e vocês sabiam que toda a Reforma se explica a partir da prisão de ventre de Lutero?

   Mas o jargão é uma tentação. Eu, por exemplo, sou fascinado pela linguagem náutica, embora minha experiência no mar se resuma a algumas passagens em transatlânticos onde a única linguagem técnica que você precise saber é “Que horas servem o bufê?”. Nunca pisei num veleiro e se pisasse seria para dar vexame na primeira onda. Eu enjoo em escada rolante. Mas, na minha imaginação, sou um marinheiro de todos os calados. Senhor de ventos e de velas e, principalmente, dos especialíssimos nomes de equipagem.

   Me imagino no leme do meu grande veleiro, dando ordens à tripulação:

   – Recolher a traquineta!

   – Largar a vela bimbão, não podemos perder esse Vizeu.

  O Vizeu é um vento que nasce na costa ocidental da África, faz a volta nas Malvinas e nos ataca a boribordo, cheirando a especiarias, carcaças de baleia e, estranhamente, a uma professora que eu tive no primário.

   – Quebrar o lume da alcatra e baixar a falcatrua!

   – Cuidado com a sanfona de Abelardo!

   A sanfona é um perigoso fenômeno que ocorre na vela parruda em certas condições atmosféricas e que, se não contido a tempo, pode decapitar o piloto. Até hoje não encontraram a cabeça do comodoro Abelardo.

   – Cruzar a spínola! Domar a espátula! Montar a sirigaita! Tudo a macambúzio e dois quartos de trela senão afundamos, e o capitão é o primeiro a pular.

   – Cortar o cabo de Eustáquio!

(Luís Fernando Veríssimo. Publicada em “As Mentiras que os homens contam”.)

De acordo com a norma padrão gramatical, há uma inadequação em:

  • A

    “Mas o jargão é uma tentação.”

  • B

    “Eu, por exemplo, sou fascinado pela linguagem náutica, [...]”

  • C

    “Me imagino no leme do meu grande veleiro, dando ordens à tripulação:”

  • D

    “Senhor de ventos e de velas e, principalmente, dos especialíssimos nomes de equipagem.”

33560Questão 6|Português|fundamental

O jargão

   Nenhuma figura é tão fascinante quanto o Falso Entendido. É o cara que não sabe nada de nada, mas sabe o jargão. E passa por autoridade no assunto. Um refinamento ainda maior da espécie é o tipo que não sabe nem o jargão. Mas inventa.

   – Ó Matias, você entende de mercado de capitais…

   – Nem tanto, nem tanto…

   (Uma das características do Falso Entendido é a falsa modéstia.)

   – Você, no momento, aconselharia que tipo de aplicação?

   – Bom. Depende do yield pretendido, do throwback e do ciclo refratário. Na faixa de papéis top market – ou o que nós chamamos de topi-maque –, o throwback recai sobre o repasse e não sobre o release, entende?

    – Francamente, não.

    Aí o Falso Entendido sorri com tristeza e abre os braços como quem diz “É difícil conversar com leigos…”.

   Uma variação do Falso Entendido é o sujeito que sempre parece saber mais do que ele pode dizer. A conversa é sobre política, os boatos cruzam os ares, mas ele mantém um discreto silêncio. Até que alguém pede a sua opinião e ele pensa muito antes de se decidir a responder:

   – Há muito mais coisa por trás disso do que vocês pensam…

   Ou então, e esta é mortal:

   – Não é tão simples assim…

   Faz-se aquele silêncio que precede as grandes revelações, mas o falso informado não diz nada. Fica subentendido que ele está protegendo as suas fontes em Brasília.

   E há o falso que interpreta. Para ele tudo o que acontece deve ser posto na perspectiva de vastas transformações históricas que só ele está sacando.

   – O avanço do socialismo na Europa ocorre em proporções diretas ao declínio no uso da gordura animal nos países do Mercado Comum. Só não vê quem não quer.

  E se alguém quer mais detalhes sobre a sua insólita teoria ele vê a pergunta como manifestação de uma hostilidade bastante significativa a interpretações não ortodoxas, e passa a interpretar os motivos de quem o questiona, invocando a Igreja medieval, os grandes hereges da história, e vocês sabiam que toda a Reforma se explica a partir da prisão de ventre de Lutero?

   Mas o jargão é uma tentação. Eu, por exemplo, sou fascinado pela linguagem náutica, embora minha experiência no mar se resuma a algumas passagens em transatlânticos onde a única linguagem técnica que você precise saber é “Que horas servem o bufê?”. Nunca pisei num veleiro e se pisasse seria para dar vexame na primeira onda. Eu enjoo em escada rolante. Mas, na minha imaginação, sou um marinheiro de todos os calados. Senhor de ventos e de velas e, principalmente, dos especialíssimos nomes de equipagem.

   Me imagino no leme do meu grande veleiro, dando ordens à tripulação:

   – Recolher a traquineta!

   – Largar a vela bimbão, não podemos perder esse Vizeu.

  O Vizeu é um vento que nasce na costa ocidental da África, faz a volta nas Malvinas e nos ataca a boribordo, cheirando a especiarias, carcaças de baleia e, estranhamente, a uma professora que eu tive no primário.

   – Quebrar o lume da alcatra e baixar a falcatrua!

   – Cuidado com a sanfona de Abelardo!

   A sanfona é um perigoso fenômeno que ocorre na vela parruda em certas condições atmosféricas e que, se não contido a tempo, pode decapitar o piloto. Até hoje não encontraram a cabeça do comodoro Abelardo.

   – Cruzar a spínola! Domar a espátula! Montar a sirigaita! Tudo a macambúzio e dois quartos de trela senão afundamos, e o capitão é o primeiro a pular.

   – Cortar o cabo de Eustáquio!

(Luís Fernando Veríssimo. Publicada em “As Mentiras que os homens contam”.)

“A conversa é sobre política, os boatos cruzam os ares, mas ele mantém um discreto silêncio.”(9º§) Se a conjunção coordenada empregada na frase fosse substituída por outra palavra, a opção adequada seria:

  • A

    Embora.

  • B

    Contudo.

  • C

    Deste modo.

  • D

    Por conseguinte.

33561Questão 7|Português|fundamental

O jargão

   Nenhuma figura é tão fascinante quanto o Falso Entendido. É o cara que não sabe nada de nada, mas sabe o jargão. E passa por autoridade no assunto. Um refinamento ainda maior da espécie é o tipo que não sabe nem o jargão. Mas inventa.

   – Ó Matias, você entende de mercado de capitais…

   – Nem tanto, nem tanto…

   (Uma das características do Falso Entendido é a falsa modéstia.)

   – Você, no momento, aconselharia que tipo de aplicação?

   – Bom. Depende do yield pretendido, do throwback e do ciclo refratário. Na faixa de papéis top market – ou o que nós chamamos de topi-maque –, o throwback recai sobre o repasse e não sobre o release, entende?

    – Francamente, não.

    Aí o Falso Entendido sorri com tristeza e abre os braços como quem diz “É difícil conversar com leigos…”.

   Uma variação do Falso Entendido é o sujeito que sempre parece saber mais do que ele pode dizer. A conversa é sobre política, os boatos cruzam os ares, mas ele mantém um discreto silêncio. Até que alguém pede a sua opinião e ele pensa muito antes de se decidir a responder:

   – Há muito mais coisa por trás disso do que vocês pensam…

   Ou então, e esta é mortal:

   – Não é tão simples assim…

   Faz-se aquele silêncio que precede as grandes revelações, mas o falso informado não diz nada. Fica subentendido que ele está protegendo as suas fontes em Brasília.

   E há o falso que interpreta. Para ele tudo o que acontece deve ser posto na perspectiva de vastas transformações históricas que só ele está sacando.

   – O avanço do socialismo na Europa ocorre em proporções diretas ao declínio no uso da gordura animal nos países do Mercado Comum. Só não vê quem não quer.

  E se alguém quer mais detalhes sobre a sua insólita teoria ele vê a pergunta como manifestação de uma hostilidade bastante significativa a interpretações não ortodoxas, e passa a interpretar os motivos de quem o questiona, invocando a Igreja medieval, os grandes hereges da história, e vocês sabiam que toda a Reforma se explica a partir da prisão de ventre de Lutero?

   Mas o jargão é uma tentação. Eu, por exemplo, sou fascinado pela linguagem náutica, embora minha experiência no mar se resuma a algumas passagens em transatlânticos onde a única linguagem técnica que você precise saber é “Que horas servem o bufê?”. Nunca pisei num veleiro e se pisasse seria para dar vexame na primeira onda. Eu enjoo em escada rolante. Mas, na minha imaginação, sou um marinheiro de todos os calados. Senhor de ventos e de velas e, principalmente, dos especialíssimos nomes de equipagem.

   Me imagino no leme do meu grande veleiro, dando ordens à tripulação:

   – Recolher a traquineta!

   – Largar a vela bimbão, não podemos perder esse Vizeu.

  O Vizeu é um vento que nasce na costa ocidental da África, faz a volta nas Malvinas e nos ataca a boribordo, cheirando a especiarias, carcaças de baleia e, estranhamente, a uma professora que eu tive no primário.

   – Quebrar o lume da alcatra e baixar a falcatrua!

   – Cuidado com a sanfona de Abelardo!

   A sanfona é um perigoso fenômeno que ocorre na vela parruda em certas condições atmosféricas e que, se não contido a tempo, pode decapitar o piloto. Até hoje não encontraram a cabeça do comodoro Abelardo.

   – Cruzar a spínola! Domar a espátula! Montar a sirigaita! Tudo a macambúzio e dois quartos de trela senão afundamos, e o capitão é o primeiro a pular.

   – Cortar o cabo de Eustáquio!

(Luís Fernando Veríssimo. Publicada em “As Mentiras que os homens contam”.)

O texto apresentado tem como característica pertencente ao gênero textual em que se classifica o emprego de uma linguagem informal podendo ser exemplificada nos seguintes trechos, EXCETO:

  • A

    “É o cara que não sabe nada de nada, mas sabe o jargão.”

  • B

    “Fica subentendido que ele está protegendo as suas fontes em Brasília.”

  • C

    “Aí o Falso Entendido sorri com tristeza e abre os braços como quem diz ‘É difícil conversar com leigos…’.”

  • D

    “Para ele tudo o que acontece deve ser posto na perspectiva de vastas transformações históricas que só ele está sacando.”

33562Questão anuladaAnuladaQuestão 8|Português|fundamental

O jargão

   Nenhuma figura é tão fascinante quanto o Falso Entendido. É o cara que não sabe nada de nada, mas sabe o jargão. E passa por autoridade no assunto. Um refinamento ainda maior da espécie é o tipo que não sabe nem o jargão. Mas inventa.

   – Ó Matias, você entende de mercado de capitais…

   – Nem tanto, nem tanto…

   (Uma das características do Falso Entendido é a falsa modéstia.)

   – Você, no momento, aconselharia que tipo de aplicação?

   – Bom. Depende do yield pretendido, do throwback e do ciclo refratário. Na faixa de papéis top market – ou o que nós chamamos de topi-maque –, o throwback recai sobre o repasse e não sobre o release, entende?

    – Francamente, não.

    Aí o Falso Entendido sorri com tristeza e abre os braços como quem diz “É difícil conversar com leigos…”.

   Uma variação do Falso Entendido é o sujeito que sempre parece saber mais do que ele pode dizer. A conversa é sobre política, os boatos cruzam os ares, mas ele mantém um discreto silêncio. Até que alguém pede a sua opinião e ele pensa muito antes de se decidir a responder:

   – Há muito mais coisa por trás disso do que vocês pensam…

   Ou então, e esta é mortal:

   – Não é tão simples assim…

   Faz-se aquele silêncio que precede as grandes revelações, mas o falso informado não diz nada. Fica subentendido que ele está protegendo as suas fontes em Brasília.

   E há o falso que interpreta. Para ele tudo o que acontece deve ser posto na perspectiva de vastas transformações históricas que só ele está sacando.

   – O avanço do socialismo na Europa ocorre em proporções diretas ao declínio no uso da gordura animal nos países do Mercado Comum. Só não vê quem não quer.

  E se alguém quer mais detalhes sobre a sua insólita teoria ele vê a pergunta como manifestação de uma hostilidade bastante significativa a interpretações não ortodoxas, e passa a interpretar os motivos de quem o questiona, invocando a Igreja medieval, os grandes hereges da história, e vocês sabiam que toda a Reforma se explica a partir da prisão de ventre de Lutero?

   Mas o jargão é uma tentação. Eu, por exemplo, sou fascinado pela linguagem náutica, embora minha experiência no mar se resuma a algumas passagens em transatlânticos onde a única linguagem técnica que você precise saber é “Que horas servem o bufê?”. Nunca pisei num veleiro e se pisasse seria para dar vexame na primeira onda. Eu enjoo em escada rolante. Mas, na minha imaginação, sou um marinheiro de todos os calados. Senhor de ventos e de velas e, principalmente, dos especialíssimos nomes de equipagem.

   Me imagino no leme do meu grande veleiro, dando ordens à tripulação:

   – Recolher a traquineta!

   – Largar a vela bimbão, não podemos perder esse Vizeu.

  O Vizeu é um vento que nasce na costa ocidental da África, faz a volta nas Malvinas e nos ataca a boribordo, cheirando a especiarias, carcaças de baleia e, estranhamente, a uma professora que eu tive no primário.

   – Quebrar o lume da alcatra e baixar a falcatrua!

   – Cuidado com a sanfona de Abelardo!

   A sanfona é um perigoso fenômeno que ocorre na vela parruda em certas condições atmosféricas e que, se não contido a tempo, pode decapitar o piloto. Até hoje não encontraram a cabeça do comodoro Abelardo.

   – Cruzar a spínola! Domar a espátula! Montar a sirigaita! Tudo a macambúzio e dois quartos de trela senão afundamos, e o capitão é o primeiro a pular.

   – Cortar o cabo de Eustáquio!

(Luís Fernando Veríssimo. Publicada em “As Mentiras que os homens contam”.)

Observando a atuação do verbo “decidir” em “Até que alguém pede a sua opinião e ele pensa muito antes de se decidir a responder:” (9º§), pode-se reconhecer a mesma atuação quanto à regência verbal, do verbo mencionado, corretamente empregada em:

  • A

    Decidiste a deixares o cargo.

  • B

    Sabiamente decidimos que viajaríamos.

  • C

    Saberia que deveria decidir uma questão.

  • D

    Minha decisão é sorrir sempre, mesmo frente aos obstáculos.

33563Questão 9|Português|fundamental

O jargão

   Nenhuma figura é tão fascinante quanto o Falso Entendido. É o cara que não sabe nada de nada, mas sabe o jargão. E passa por autoridade no assunto. Um refinamento ainda maior da espécie é o tipo que não sabe nem o jargão. Mas inventa.

   – Ó Matias, você entende de mercado de capitais…

   – Nem tanto, nem tanto…

   (Uma das características do Falso Entendido é a falsa modéstia.)

   – Você, no momento, aconselharia que tipo de aplicação?

   – Bom. Depende do yield pretendido, do throwback e do ciclo refratário. Na faixa de papéis top market – ou o que nós chamamos de topi-maque –, o throwback recai sobre o repasse e não sobre o release, entende?

    – Francamente, não.

    Aí o Falso Entendido sorri com tristeza e abre os braços como quem diz “É difícil conversar com leigos…”.

   Uma variação do Falso Entendido é o sujeito que sempre parece saber mais do que ele pode dizer. A conversa é sobre política, os boatos cruzam os ares, mas ele mantém um discreto silêncio. Até que alguém pede a sua opinião e ele pensa muito antes de se decidir a responder:

   – Há muito mais coisa por trás disso do que vocês pensam…

   Ou então, e esta é mortal:

   – Não é tão simples assim…

   Faz-se aquele silêncio que precede as grandes revelações, mas o falso informado não diz nada. Fica subentendido que ele está protegendo as suas fontes em Brasília.

   E há o falso que interpreta. Para ele tudo o que acontece deve ser posto na perspectiva de vastas transformações históricas que só ele está sacando.

   – O avanço do socialismo na Europa ocorre em proporções diretas ao declínio no uso da gordura animal nos países do Mercado Comum. Só não vê quem não quer.

  E se alguém quer mais detalhes sobre a sua insólita teoria ele vê a pergunta como manifestação de uma hostilidade bastante significativa a interpretações não ortodoxas, e passa a interpretar os motivos de quem o questiona, invocando a Igreja medieval, os grandes hereges da história, e vocês sabiam que toda a Reforma se explica a partir da prisão de ventre de Lutero?

   Mas o jargão é uma tentação. Eu, por exemplo, sou fascinado pela linguagem náutica, embora minha experiência no mar se resuma a algumas passagens em transatlânticos onde a única linguagem técnica que você precise saber é “Que horas servem o bufê?”. Nunca pisei num veleiro e se pisasse seria para dar vexame na primeira onda. Eu enjoo em escada rolante. Mas, na minha imaginação, sou um marinheiro de todos os calados. Senhor de ventos e de velas e, principalmente, dos especialíssimos nomes de equipagem.

   Me imagino no leme do meu grande veleiro, dando ordens à tripulação:

   – Recolher a traquineta!

   – Largar a vela bimbão, não podemos perder esse Vizeu.

  O Vizeu é um vento que nasce na costa ocidental da África, faz a volta nas Malvinas e nos ataca a boribordo, cheirando a especiarias, carcaças de baleia e, estranhamente, a uma professora que eu tive no primário.

   – Quebrar o lume da alcatra e baixar a falcatrua!

   – Cuidado com a sanfona de Abelardo!

   A sanfona é um perigoso fenômeno que ocorre na vela parruda em certas condições atmosféricas e que, se não contido a tempo, pode decapitar o piloto. Até hoje não encontraram a cabeça do comodoro Abelardo.

   – Cruzar a spínola! Domar a espátula! Montar a sirigaita! Tudo a macambúzio e dois quartos de trela senão afundamos, e o capitão é o primeiro a pular.

   – Cortar o cabo de Eustáquio!

(Luís Fernando Veríssimo. Publicada em “As Mentiras que os homens contam”.)

“E se alguém quer mais detalhes sobre a sua insólita teoria ele vê a pergunta como manifestação de uma hostilidade bastante significativa a interpretações não ortodoxas, e passa a interpretar os motivos de quem o questiona, invocando a Igreja medieval, os grandes hereges da história, e vocês sabiam que toda a Reforma se explica a partir da prisão de ventre de Lutero?” (16º§) Considerando o trecho destacado, pode-se afirmar que os termos a seguir são complementos verbais:

  • A

    alguém / mais detalhes

  • B

    a pergunta / os motivos

  • C

    igreja medieval / de Lutero

  • D

    insólita teoria / uma hostilidade

33564Questão 10|Português|fundamental

O jargão

   Nenhuma figura é tão fascinante quanto o Falso Entendido. É o cara que não sabe nada de nada, mas sabe o jargão. E passa por autoridade no assunto. Um refinamento ainda maior da espécie é o tipo que não sabe nem o jargão. Mas inventa.

   – Ó Matias, você entende de mercado de capitais…

   – Nem tanto, nem tanto…

   (Uma das características do Falso Entendido é a falsa modéstia.)

   – Você, no momento, aconselharia que tipo de aplicação?

   – Bom. Depende do yield pretendido, do throwback e do ciclo refratário. Na faixa de papéis top market – ou o que nós chamamos de topi-maque –, o throwback recai sobre o repasse e não sobre o release, entende?

    – Francamente, não.

    Aí o Falso Entendido sorri com tristeza e abre os braços como quem diz “É difícil conversar com leigos…”.

   Uma variação do Falso Entendido é o sujeito que sempre parece saber mais do que ele pode dizer. A conversa é sobre política, os boatos cruzam os ares, mas ele mantém um discreto silêncio. Até que alguém pede a sua opinião e ele pensa muito antes de se decidir a responder:

   – Há muito mais coisa por trás disso do que vocês pensam…

   Ou então, e esta é mortal:

   – Não é tão simples assim…

   Faz-se aquele silêncio que precede as grandes revelações, mas o falso informado não diz nada. Fica subentendido que ele está protegendo as suas fontes em Brasília.

   E há o falso que interpreta. Para ele tudo o que acontece deve ser posto na perspectiva de vastas transformações históricas que só ele está sacando.

   – O avanço do socialismo na Europa ocorre em proporções diretas ao declínio no uso da gordura animal nos países do Mercado Comum. Só não vê quem não quer.

  E se alguém quer mais detalhes sobre a sua insólita teoria ele vê a pergunta como manifestação de uma hostilidade bastante significativa a interpretações não ortodoxas, e passa a interpretar os motivos de quem o questiona, invocando a Igreja medieval, os grandes hereges da história, e vocês sabiam que toda a Reforma se explica a partir da prisão de ventre de Lutero?

   Mas o jargão é uma tentação. Eu, por exemplo, sou fascinado pela linguagem náutica, embora minha experiência no mar se resuma a algumas passagens em transatlânticos onde a única linguagem técnica que você precise saber é “Que horas servem o bufê?”. Nunca pisei num veleiro e se pisasse seria para dar vexame na primeira onda. Eu enjoo em escada rolante. Mas, na minha imaginação, sou um marinheiro de todos os calados. Senhor de ventos e de velas e, principalmente, dos especialíssimos nomes de equipagem.

   Me imagino no leme do meu grande veleiro, dando ordens à tripulação:

   – Recolher a traquineta!

   – Largar a vela bimbão, não podemos perder esse Vizeu.

  O Vizeu é um vento que nasce na costa ocidental da África, faz a volta nas Malvinas e nos ataca a boribordo, cheirando a especiarias, carcaças de baleia e, estranhamente, a uma professora que eu tive no primário.

   – Quebrar o lume da alcatra e baixar a falcatrua!

   – Cuidado com a sanfona de Abelardo!

   A sanfona é um perigoso fenômeno que ocorre na vela parruda em certas condições atmosféricas e que, se não contido a tempo, pode decapitar o piloto. Até hoje não encontraram a cabeça do comodoro Abelardo.

   – Cruzar a spínola! Domar a espátula! Montar a sirigaita! Tudo a macambúzio e dois quartos de trela senão afundamos, e o capitão é o primeiro a pular.

   – Cortar o cabo de Eustáquio!

(Luís Fernando Veríssimo. Publicada em “As Mentiras que os homens contam”.)

Considerando-se o emprego dos mecanismos de coesão textual, analise as indicações a seguir em relação aos termos destacados.

I. “Ou então, e esta é mortal:” / elemento catafórico.

II. “– Há muito mais coisa por trás disso do que vocês pensam…” / referenciação.

III. “Fica subentendido que ele está protegendo as suas fontes em Brasília.” / introdução de referentes equivalentes.

Está correto o que se afirma apenas em

  • A

    I.

  • B

    II.

  • C

    I e II.

  • D

    II e III.