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No 1° parágrafo, o autor


141540|Português|médio

Gilda de Mello e Souza dizia que o Brasil é muito bom

nas novelas. Para ter público, a novela precisa dispor de personagens

de todas as classes sociais, explicava ela, o que exige

uma trama complexa. Acrescento: a mobilidade social é decisiva

nas novelas e se dá sobretudo pelo amor entre ricos e

pobres. Provavelmente as novelas exibam casos de ascensão

social pelo amor - genuíno ou fingido - em proporção maior que

a vida real .... Mas a novela não é um retrato do Brasil, ou melhor,

é sim, mas como aqueles retratos antigos do avô e da avó,

fotografados em preto e branco, mas, depois, cuidadosamente

retocados e coloridos. O fundo é real. A tela: ideais, sonhos,

fantasias.

Novelas vivem de conflitos. Eles são movidos, quase

todos, pela oposição do bem e do mal. Esse confronto dramático

nos empolga. Talvez por isso a democracia não nos

empolgue tanto, no seu dia a dia: porque, nela, os conflitos são

a norma e não a exceção. Ela é o único regime em que divergir,

sem ter de se explicar e justificar, é legítimo. Quando uma

democracia funciona bem, não escolhemos em razão da honestidade

e competência - que deveriam existir nos dois ou mais

lados em concorrência - mas com base nos valores que preferimos,

por exemplo, liberalismo ou socialismo. Mas nossa

tendência, mesmo nas democracias, é converter as eleições em

lutas do bem contra o mal. É demonizar o adversário, transformá-

lo em inimigo. Creio que isso explica por que a democracia,

uma vez instalada, empolga menos que a novela. De

noite, dá mais prazer reeditar o *ágon milenar do bem e do mal,

do que aceitar que os conflitos fazem parte essencial da vida e,

portanto, as duas partes podem ter alguma razão. Aliás, há

muitos séculos que é encenada essa situação de confronto

irremediável entre dois lados que têm razão: desde os gregos

antigos, tem o nome de tragédia. A democracia é uma tragédia

sem final infeliz - ou, talvez, sem final.

As novelas recompensam, em geral, os bons. Mas eles

são bons só na vida privada. É difícil alguém se empenhar em

melhorar a cidade, a sociedade. As personagens boas são

afetuosas, solidárias, mas não têm vida pública. As personagens

más são menos numerosas, mas são indispensáveis.

Condimentam a trama. Seu destino é mais variado, e assim

deve ser, se quisermos uma boa novela. Não podem ser todas

punidas, nem sair todas impunes.

ágon

  • elemento de origem grega: assembleia; local onde se realizam

jogos sacros e lutas; luta.

(Trecho do artigo de Renato Janine Ribeiro.

O Estado de S.

Paulo

,

C2+música

, D17, 11 de setembro de 2010, com

adaptações.)

No 1° parágrafo, o autor

  • A

    incorpora uma opinião alheia sobre as novelas como base para iniciar o desenvolvimento de suas próprias ideias a respeito desse tema.

  • B

    estabelece a oposição básica que perpassa todo o assunto do texto, entre sinceridade e fingimento, que também vai nortear o debate político na democracia.

  • C

    se vale da ficção apresentada nas novelas como imagem diluída de uma sociedade permissiva, que aceita, sem restrições, comportamentos antiéticos.

  • D

    condena o uso, muitas vezes indevido, de um sentimento amoroso que deveria unir pessoas, como meio válido de ascensão social.

  • E

    critica o hábito, comum em autores de novelas, de criar conflitos nem sempre válidos, para tornar a trama mais atraente.