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O desenvolvimento do texto salienta, especialmente,


130096|Português|médio

O sino d e ouro

[...] − mas me contaram em Goiás, nessa povoação de poucas almas, as casas são pobres e os homens pobres, e muitos são parados e doentes e indolentes, e mesmo a igreja é pequena, me contaram que ali tem − coisa bela e espantosa − um grande sino de ouro.

Lembrança de antigo esplendor, gesto de gratidão, dádiva ao Senhor de um grã-senhor − nem Chartres, nem Colônia, nem S. Pedro ou Ruão, nenhuma catedral imensa com seus enormes carrilhões tem nada capaz de um som tão lindo e puro como esse sino de ouro, de ouro catado e fundido na própria terra goiana nos tempos de antigamente.

É apenas um sino, mas é de ouro. De tarde seu som vai voando em ondas mansas sobre as matas e os cerrados, e as veredas de buritis, e a melancolia do chapadão, e chega ao distante e deserto carrascal, e avança em ondas mansas sobre os campos imensos, o som do sino de ouro. E a cada um daqueles homens pobres ele dá cada dia sua ração de alegria. Eles sabem que de todos os ruídos e sons que fogem do mundo em procura de Deus − gemidos, gritos, blasfêmias, batuques, sinos, orações, e o murmúrio temeroso e agônico das grandes cidades que esperam a explosão atômica e no seu próprio ventre negro parecem conter o germe de todas as explosões − eles sabem que Deus, com especial delícia e alegria, ouve o som alegre do sino de ouro perdido no fundo do sertão. E então é como se cada homem, o mais pobre, o mais doente e humilde, o mais mesquinho e triste, tivesse dentro da alma um pequeno sino de ouro. [...]

Mas quem me contou foi um homem velho que esteve lá; contou dizendo: “eles têm um sino de ouro e acham que vivem disso, não se importam com mais nada, nem querem mais trabalhar; fazem apenas o essencial para comer e continuar a viver, pois acham maravilhoso ter um sino de ouro”.

O homem velho me contou isso com espanto e desprezo. Mas eu contei a uma criança e nos seus olhos se lia seu pensamento: que a coisa mais bonita do mundo deve ser ouvir um sino de ouro. Com certeza é esta mesma a opinião de Deus, pois ainda que Deus não exista ele só pode ter a mesma opinião de uma criança. Pois cada um de nós quando criança tem dentro da alma seu sino de ouro que depois, por nossa culpa e miséria e pecado e corrução*, vai virando ferro e chumbo, vai virando pedra e terra, e lama e podridão.

*corrução = corrupção (regionalismo)

(Adaptado de: BRAGA, Rubem. Os melhores contos de Rubem Braga. São Paulo: Global, 1999, 10 ed. p. 131-132)

O desenvolvimento do texto salienta, especialmente,

  • A

    a importância da preservação de um meio ambiente favorável à propagação do som oriundo das badaladas de um sino de ouro que, ecoando na natureza, traz alegria para aqueles que o estão ouvindo.

  • B

    a permanência de uma concepção materialista voltada para elementos terrenos de valor incontestável perante os homens, representado pelo sino de ouro que resgata as antigas riqueza e importância do lugar.

  • C

    o contraste entre antiga riqueza e atual pobreza, assim como entre a grandeza de catedrais famosas e a simplicidade do lugarejo em que a existência de um sino de ouro se mostra como algo extraordinário.

  • D

    o esforço de uma população que vive sem recursos em uma região distante e abandonada, no sentido de demonstrar sua fé através do som produzido por um objeto de grande valor, como o sino de ouro.

  • E

    o desencanto das pessoas mais velhas com a decadência do lugar onde vivem, de cuja grandiosidade restou apenas um sino de ouro que, ainda que pequeno, corrobora suas convicções religiosas.