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Utilizando a função poética da linguagem, o autor do texto


94244|Português|médio

No tempo de andarilho

Prospera pouco no Pantanal o andarilho. Seis meses, durante

a seca, anda. Remói caminhos e descaminhos. Abastece de perna

as distâncias. E, quando as estradas somem, cobertas por águas,

arrancha.

O andarilho é um antipiqueteiro por vocação. Ninguém o

embuçala. Não tem nome nem relógio. Vagabundear é virtude

atuante para ele. Nem é um idiota programado, como nós. O próprio

esmo é que o erra.

Chega em geral com escuro. Não salva os moradores do

lugar. Menos por deseducado. Senão por alheamento e fastio.

Abeira-se do galpão, mais dois cachorros, magros, pede

comida, e se recolhe em sua vasilha de dormir armada no tempo.

Cedo, pela magrez dos cachorros que estão medindo o pátio,

toda a fazenda sabe que Bernardão chegou. "Venho do oco do

mundo. Vou para o oco do mundo." É a única coisa que ele adianta.

O que não adianta.

(...)

Enquanto as águas não descem e as estradas não se

mostram, Bernardo trabalha pela bóia. Claro que resmunga. Está

com raiva de quem inventou a enxada. E vai assustando o mato

como um feiticeiro.

Os hippies o imitam por todo o mundo. Não faz entretanto

brasão de seu pioneirismo. Isso de entortar pente no cabelo intratável

ele pratica de velho. A adesão pura à natureza e a inocência

nasceram com ele. Sabe plantas e peixes mais que os santos.

Não sei se os jovens de hoje, adeptos da natureza,

conseguirão restaurar dentro deles essa inocência. Não sei se

conseguirão matar dentro deles a centopéia do consumismo.

Porque, já desde nada, o grande luxo de Bernardo é ser

ninguém. Por fora é galalau. Por dentro não arredou de criança. É ser

que não conhece ter. Tanto que inveja não se acopla nele.

Manoel de Barros. Livro de pré-coisas: roteiro para uma excursão

poética no Pantanal. 2.a ed. Rio de Janeiro: Record, 1997, p. 47-8.

Utilizando a função poética da linguagem, o autor do texto

  • A

    faz apologia do modo de vida do andarilho e, conseqüentemente, de todos aqueles que desprezam o trabalho.

  • B

    critica os valores de indivíduos que compõem a sociedade atual ao contrapor-lhes a beleza que percebe na figura do andarilho.

  • C

    apresenta a figura idealizada do andarilho, buscando convencer o leitor a se solidarizar com pessoas à margem da sociedade e a lhes oferecer emprego.

  • D

    descreve um andarilho cujo objetivo "é ser ninguém", para ressaltar a influência desse tipo social no movimento tanto de jovens que romperam com os valores sociais estabelecidos quanto dos jovens consumistas.

  • E

    desaprova o modo de vida do andarilho, como comprova o trecho "Vagabundear é virtude atuante para ele".