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De acordo com o texto, o andarilho


94243|Português|médio

No tempo de andarilho

Prospera pouco no Pantanal o andarilho. Seis meses, durante

a seca, anda. Remói caminhos e descaminhos. Abastece de perna

as distâncias. E, quando as estradas somem, cobertas por águas,

arrancha.

O andarilho é um antipiqueteiro por vocação. Ninguém o

embuçala. Não tem nome nem relógio. Vagabundear é virtude

atuante para ele. Nem é um idiota programado, como nós. O próprio

esmo é que o erra.

Chega em geral com escuro. Não salva os moradores do

lugar. Menos por deseducado. Senão por alheamento e fastio.

Abeira-se do galpão, mais dois cachorros, magros, pede

comida, e se recolhe em sua vasilha de dormir armada no tempo.

Cedo, pela magrez dos cachorros que estão medindo o pátio,

toda a fazenda sabe que Bernardão chegou. "Venho do oco do

mundo. Vou para o oco do mundo." É a única coisa que ele adianta.

O que não adianta.

(...)

Enquanto as águas não descem e as estradas não se

mostram, Bernardo trabalha pela bóia. Claro que resmunga. Está

com raiva de quem inventou a enxada. E vai assustando o mato

como um feiticeiro.

Os hippies o imitam por todo o mundo. Não faz entretanto

brasão de seu pioneirismo. Isso de entortar pente no cabelo intratável

ele pratica de velho. A adesão pura à natureza e a inocência

nasceram com ele. Sabe plantas e peixes mais que os santos.

Não sei se os jovens de hoje, adeptos da natureza,

conseguirão restaurar dentro deles essa inocência. Não sei se

conseguirão matar dentro deles a centopéia do consumismo.

Porque, já desde nada, o grande luxo de Bernardo é ser

ninguém. Por fora é galalau. Por dentro não arredou de criança. É ser

que não conhece ter. Tanto que inveja não se acopla nele.

Manoel de Barros. Livro de pré-coisas: roteiro para uma excursão

poética no Pantanal. 2.a ed. Rio de Janeiro: Record, 1997, p. 47-8.

De acordo com o texto, o andarilho

  • A

    percebe que as pessoas dos lugares aonde chega têm expectativa do aparecimento de um salvador, mas ele mantém-se alheio às crenças locais.

  • B

    dispensa qualquer tipo de relação com os habitantes dos lugares por onde passa porque não é "um idiota programado".

  • C

    não cumprimenta os moradores do lugar onde "arrancha" porque se mantém alheio e considera enfadonho o ato social do cumprimento.

  • D

    é um cidadão típico que inspira todos os jovens que já nasceram valorizando a natureza e cultuando a inocência.

  • E

    manifesta atitudes infantis que contrastam com sua aparência robusta porque sua meta é ser ninguém em um mundo que só conhece o ter.