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As “brincadeiras de criança”, anunciadas pelo título do texto, são depois especificadas como


85478|Português|superior

Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto abaixo.

Brincadeiras de criança

  Entre as crianças daquele tempo, na hora de formar grupos pra brincar, alguém separava as sílabas enquanto ia rodando e apontando cada um com o dedo: “Lá em ci-ma do pi-a-no tem um co-po de ve-ne-no, quem be-beu mor-reu, o cul-pa-do não fui eu”. Piano? Qual? Veneno? Por quê? Morreu? Quem? Tratava-se de uma “parlenda”*, como aprendi bem mais tarde, mas podem chamar de surrealismo, enigma, senha mágica, charada...

  Mesmo as nossas cartilhas de alfabetização tinham seus mistérios: uma das lições iniciais era a frase “A macaca é má”, com a ilustração de uma macaquinha espantada e a exploração repetida das sílabas “ma” e “ca”. Ponto. Nenhuma história? Por que era má a macaquinha? Depois aprendi que “má macaca” é um parequema**. A gente vai ficando sabido e ignorando o essencial. O que, afinal, teria aprontado a má macaquinha da cartilha?

  A grande poeta Orides Fontela usou como epígrafe de um de seus livros de alta poesia (Helianto, 1973) esta popular quadrinha de cantiga de roda: 

                                                  “Menina, minha menina,

Faz favor de entrar na roda

Cante um verso bem bonito

Diga adeus e vá-se embora”

  Ou seja: brincando, brincando, eis a nossa vida resumida, em meio aos densos poemas de Orides, a nossa vida, em que cada um de nós se apresenta aos outros, busca dizer com capricho a que veio no tempinho que teve e...adeus. Podem soar fundo as palavras mais inocentes: “ir-se embora”, depois da viva roda... E ir-se embora sem saber mais nada daquele copo de veneno em cima do piano ou da macaquinha da cartilha, eternamente condenada a ser má. Ir-se embora já ouvindo bem ao longe as vozes das crianças cantando na roda.

  • parlenda: palavreado utilizado em brincadeiras infantis ou jogos de memorização.

** parequema: repetição de sons ou da sílaba final de uma palavra, no início da palavra seguinte.

(Adaptado de: MACEDÔNIO, Faustino. Casos de almanaque, a publicar)

As “brincadeiras de criança”, anunciadas pelo título do texto, são depois especificadas como

  • A

    jogos de palavras aparentemente sem sentido, mas que não tardam a revelar-se como formulações carregadas de claro ensinamento.

  • B

    construções verbais encantatórias, seja pelo mistério que encerram, seja pela utilidade ou animação das palavras de que se fazem.

  • C

    demonstrações da fértil imaginação infantil, que cria e elabora palavras nascidas de suas experiências lúdicas.

  • D

    práticas nascidas da fantasia adulta, criadas para entreter as crianças e remover delas os sentimentos do medo e da dúvida.

  • E

    criações linguísticas de caráter didático, cujo intuito essencial é estimular nas crianças o hábito da investigação científica.