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50655|Português|médio

As pitangueiras d’antanho*

       Tem seus 23 anos, e eu a conheço desde os oito ou nove, sempre assim, meio gordinha, engraçada, de cabelos ruivos. Foi criada, a bem dizer, na areia do Arpoador; nasceu e viveu em uma daquelas ruas que vão de Copacabana a Ipanema, de praia a praia. A família mudou-se quando a casa foi comprada para construção de edifício.

             Certa vez me contou:

           – Em meu quarteirão não há uma só casa de meu tempo de menina. Se eu tivesse passado anos fora do Rio e voltasse agora, acho que não acertaria nem com a minha rua. Tudo acabou: as casas, os jardins, as árvores. É como se eu não tivesse tido infância...

             Falta-lhe uma base física para a saudade. Tudo o que parecia eterno sumiu.

         Outra senhora disse então que se lembrava muito de que, quando era menina, apanhava pitangas em Copacabana; depois, já moça, colhia pitangas na Barra da Tijuca; e hoje não há mais pitangas. Disse isso com uma certa animação, e depois ficou um instante com o ar meio triste – a melancolia de não ter mais pitangas, ou, quem sabe, a saudade daquela manhã em que foi com o namorado colher pitangas.

          Também em minha infância, há pitangueiras de praia. Não baixinhas, em moitas, como aquelas de Cabo Frio, que o vento não deixa crescer; mas altas; e suas copas se tocavam e faziam uma sombra varada por pequenos pontos de sol.

(Rubem Fonseca, “As pitangueiras d’antanho”. 200 crônicas escolhidas, 2001. Fragmento)

  • d’antanho: de épocas passadas

A concordância nominal está de acordo com a norma-padrão em:

  • A

    Ela falou com certa animação, depois ficou um instante com a expressão meia triste – a melancolia de não ter mais pitangas.

  • B

    É necessária sabedoria para lidar com melancolias advindo da saudade das pitangas que outrora nos encantaram.

  • C

    O matiz das conversas deixou-me claro que tanto a moça quanto a senhora estavam saudosas das pitangueiras.

  • D

    A senhora falou-me que havia bastante pitangas em Copacabana e na Barra da Tijuca e ela as apanhava sempre.

  • E

    A moça lamentou que não havia uma só casa de seu tempo de infância, o que me fez sentir uma dó imensa dela.