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Ficam implícitas no poema as


141846|Português|médio

Banguê

Cadê você meu país do Nordeste

que eu não vi nessa Usina Leão de minha terra?

Ah, Usina, você engoliu os banguezinhos do país das

Alagoas!

Você é grande, Usina Leão!

Você é forte, Usina Leão!

..................

Onde é que está a alegria das bagaceiras?

O cheiro bom do mel borbulhando nas tachas?

A tropa dos pães de açúcar atraindo arapuás?

Onde é que mugem os meus bois trabalhadores?

Onde é que cantam meus caboclos lambanceiros?

Onde é que dormem de papos para o ar os bebedores

de resto de alambique?

E os senhores de espora?

E as sinhás-donas de cocó?

........................

O meu banguezinho era tão diferente,

vestidinho de branco, o chapeuzinho do telhado sobre os olhos,

fumando o cigarro do boeiro pra namorar a mata virgem.

Nos domingos tinha missa na capela

e depois da missa uma feira danada:

a zabumba tirando esmola para as almas;

e os cabras de faca de ponta na cintura,

a camisa por fora das calças:

"Mão de milho a pataca!"

"Carretel marca Alexandre a doistões!"

Cadê você meu país de banguês

com as cantigas da boca da moenda:

"Tomba cana João que eu já tombei!"

E o eixo de maçaranduba chorando

talvez os estragos que a cachaça ia fazer!

.......................

Cadê a sua casa-grande, banguê,

...............

com as suas Donanas alcoviteiras?

Com seus Totôs e seus Pipius corredores de cavalhadas?

E as suas molecas catadoras de piolho,

e as suas negras Calus, que sabiam fazer munguzás,

manuês,

cuscuz,

e suas sinhás dengosas amantes dos banhos de rio

e de redes de franja larga!

Cadê os nomes de você, banguê?

...........................................

Ah, Usina Leão, você engoliu

os banguezinhos do país das Alagoas!

...............................

Glossário

  • banguê: engenho de açúcar primitivo, movido a força animal.

(LIMA, Jorge de.

Poesias Completas

. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1974, v. I, p. 161-163)

Ficam implícitas no poema as

  • A

    atitudes de desprezo dos senhores de engenho pelas miseráveis condições de vida dos trabalhadores, sujeitos a uma rotina desumana.

  • B

    raízes da miscigenação, como resultado inevitável da convivência diária entre senhores brancos e escravos, na época colonial.

  • C

    bases dos constantes conflitos entre senhores brancos poderosos e trabalhadores em regime de escravidão nos engenhos do país.

  • D

    normas sociais e econômicas que se estabeleceram com base no trabalho desenvolvido nos engenhos de açúcar nordestinos.

  • E

    condições miseráveis em que vive, ainda hoje, boa parte da população brasileira, principalmente em regiões mais afastadas e pobres do país.